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06/11/2025

Seminário de Cinema Indígena abre 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia

Com transmissão online, programação teve início nesta quarta-feira (5), no Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara.

Iraquara, Lençóis, Vitória da Conquista, Poções, Ilhéus, Santa Cruz Cabrália, Feira de Santana, Santo Amaro, Paulo Afonso, Luís Eduardo Magalhães. Essas são apenas algumas das cidades que representam a diversidade de origens e territórios presente no 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia. O evento teve início na noite desta quarta-feira (5), com o Seminário de Cinema Indígena, que abriu a programação junto ao 5º Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI).

Com transmissão online, a atividade reuniu três realizadores indígenas de diferentes regiões do país para discutir, a partir de suas vivências e das perspectivas de suas comunidades, o cinema feito por povos originários. A mediação ficou por conta de Daniel Leite Almeida, coordenador geral do Fórum e diretor executivo da Ato3 Produções. “Esse tema não está posto aqui de forma banal. É um tema que me atravessa”, disse o cineasta ao lembrar como a busca por sua ancestralidade se conecta com o seu fazer cinematográfico.

Atividades presenciais do Fórum acontecem no Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara.

Cinema, território e ancestralidade

Foi também a conexão entre cinema, território e ancestralidade que guiou os depoimentos compartilhados pelos realizadores convidados para o seminário. Cada um narrou o seu processo de encontro com o cinema enquanto ferramenta de formação, preservação de memória e transformação social. “Quando a câmera caiu na minha mão, foi uma felicidade completa pra mim”, contou Divino Tserewahú, pioneiro no cinema indígena brasileiro.

Pertencente ao povo Xavante da aldeia de Sangradouro, em General Carneiro (MT), ele iniciou sua jornada cinematográfica em 1990, quando teve seu destino atravessado por um câmera VHS. Com o apoio e incentivo da mãe, do irmão e da comunidade, aprendeu a usar o equipamento. “Eu gostava de filmar no meio da poeira, no meio da dança, eu ficava filmando tudo”, lembrou. Sua primeira experiência profissional ocorreu entre 1995 e 1996, no Programa de Índio, uma série de TV da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). 

Em 1997, Tserewahú participou do 1º Encontro de Cineastas Indígenas do Brasil, organizado pelo projeto Vídeo nas Aldeias, no Parque do Xingu. Em seguida, conquistou uma vaga na Escola Internacional de Cinema de San António de Los Baños, em Cuba, onde se capacitou em áreas como edição e roteiro. Com filmes como “Wapté Mnhõnõ, A Iniciação do Jovem Xavante” e “Daritidzé, Aprendiz de Curador”, seu trabalho tem sido premiado em diversos festivais, e é frequentemente objeto de estudo acadêmico. “Os olhares indígenas são diferentes dos olhares não indígenas. O cinema indígena é o cinema que fala por nós e mostra nossos olhares”, destacou. Com o sonho de ser cineasta já realizado há mais de duas décadas, seu desejo agora é que, no futuro, exista um canal de TV indígena no Brasil. 

Seminário de Cinema Indígena reuniu três realizadores audiovisuais de diferentes regiões do país, incluindo o pioneiro Divino Tserewahú.

“Cinema indígena também é cinema brasileiro” 

Para Alberto Álvares, professor, pesquisador e cineasta da etnia Guarani Nhandewa, é preciso reforçar para a sociedade que “o cinema indígena também é cinema brasileiro” e, ao mesmo tempo, é múltiplo e diverso, tal qual a diversidade de povos e etnias indígenas existentes no país. “Eu não penso o cinema indígena, eu penso o cinema guarani, que é a minha realidade”, ressaltou. Doutorando no programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF), ele foi o segundo convidado a compartilhar sua trajetória e perspectivas sobre o audiovisual no Seminário de Cinema Indígena.

Alberto mora no Rio de Janeiro há cerca de 15 anos, mas nasceu e cresceu na aldeia Porto Lindo, no Mato Grosso do Sul. “A minha vida é andar e pensar o cinema nesses territórios entre as regiões sul e sudeste do Brasil”, afirmou. Desde que iniciou sua carreira, já realizou mais de 20 documentários, entre eles “O último sonho” e “Guardião das Memórias”. Em 2021, foi um dos autores do especial “Falas da Terra”, da TV Globo. Como educador, atua diretamente com a formação de novas gerações de realizadores indígenas.

“Hoje eu vejo que cada take, cada cena, é uma memória que você vai registrando. Cada canto, cada história e cada expressão dos mais velhos, das crianças, é uma forma de escrever a nossa história através da imagem. E isso é fundamental pra nós porque, muitas vezes, a gente não escreve a nossa história. O cinema é um mercado elitizado. Quando você não consegue entrar nesse universo, você é apagado. Mas quando a gente inverte a câmera ou inverte o ponto de vista e passa a produzir, a gente deixa de ser caça e nos tornamos o caçador da nossa própria história. E hoje eu sou muito feliz de escrever minha própria história dentro do cinema e dentro da ciência”, relatou.

Alberto Álvares: “O cinema é um mercado elitizado. Quando você não consegue entrar nesse universo, você é apagado”.

“A gente quer ir ao cinema”

A circulação e exibição de produções cinematográficas em territórios indígenas também foi um tema abordado no seminário a partir do depoimento da artista, comunicadora e empreendedora cultural Thaís Kokama, da Aldeia Inhaã-bé, de Manaus (AM). Além de desenvolver ações que fortalecem a economia criativa em sua região, com foco em moda, pintura corporal e audiovisual, ela é idealizadora do Cine Aldeia, a primeira sala de cinema indígena do Brasil.

O projeto surgiu a partir de um desejo confessado a Thaís pelas crianças de sua comunidade: “A gente quer ir ao cinema”, lhe disseram. Porém, entre o desejo e a possibilidade de concretizá-lo havia a estiagem. “Quando acontece a estiagem, a gente tem que andar mais de três horas pra pegar um transporte fluvial ou terrestre, porque o rio seca mesmo”, relembrou. E além de longo, o percurso até o cinema era perigoso. “A gente não queria mais passar por isso”. Foi então que surgiu a ideia de criar o Cine Aldeia. A proposta foi logo abraçada pela comunidade e por apoiadores que, junto a recursos captados via edital, viabilizaram a criação da iniciativa.

“Eu fiquei muito feliz porque não foi uma conquista só minha, foi uma conquista coletiva. Hoje, através do Cine Aldeia, eu posso selecionar várias produções feitas por cineastas indígenas, porque hoje a gente têm vários diretores, roteiristas e profissionais audiovisuais”, contou. No lançamento da sala de cinema, dois dos filmes exibidos, inclusive, foram produções assinadas pela própria Thaís: “Traços da Resistência” e “Pintura Ancestral”. “É muito importante estarmos hoje nessa posição de roteiristas, de cineastas, de diretores, contando e narrando o que realmente aconteceu e acontece nos nossos territórios. E eu continuo pelos meus ancestrais, porque lá atrás eles não puderam ter tudo isso”, finalizou.

Thaís Kokama: “Eu continuo pelos meus ancestrais, porque lá atrás eles não puderam ter tudo isso”.

Segundo Daniel Leite Almeida, as contribuições dos convidados no seminário demonstraram como o cinema pode ser uma importante ferramenta de autonomia. “Quando a gente cria condições para nos vermos nas telas e contarmos nossas histórias, a gente cria essa identificação que, logicamente, nos dá essa autonomia”, pontuou ao final da atividade. Ele destacou ainda a importância da formação como meio de instrumentalizar as comunidades para que “tenhamos mais vozes e histórias indígenas sendo contadas por meio do cinema”.

Abertura oficial e Painel de Filmes do Interior

Além de mediar o seminário, o cineasta e coordenador geral do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia também integrou a mesa de abertura do evento junto ao FASAI, realizada no Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara. A cerimônia marcou o início da programação de ambos projetos e contou ainda com a presença de Wilmar Ferraz, realizador do Festival; do prefeito de Iraquara, Nino Coutinho; e do vereador Valmir Junior, representando a Câmara Municipal.

“A gente conseguiu integrar muito bem o Fórum e o Festival. E isso pra Iraquara é muito importante, porque mostra a força dos interiores e das pessoas que trabalham com o audiovisual por aqui”, disse o prefeito. “Foi um ganho não só cultural, mas político, e de amplitude de público”, complementou Wilmar. Presencialmente, mais de 60 pessoas participaram da abertura oficial do Fórum e do FASAI.

O público presente também pôde prestigiar o Mural Coletivo de Filmes do Interior, um mosaico formado por cartazes de dezenas de produções audiovisuais desenvolvidas em diferentes cidades e Territórios de Identidade da Bahia. Em exposição no Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara, o mural foi criado a partir de uma chamada divulgada no perfil oficial do Fórum no Instagram. A curadoria refletiu a diversidade de temas abordados em curtas e longas-metragens do interior, com destaque para a atuação de regiões como a Chapada Diamantina, o Sul, Sudoeste e Litoral Baiano, entre outras. Segundo a produção, o mosaico representa a concretização do conceito de cinema como território vivo, marca desta 3ª edição.

O projeto tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia. Conta ainda com o apoio da Prefeitura Municipal de Iraquara, da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), e com a parceria do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste de Bahia (Uesb), por meio do programa Janela Indiscreta. A realização é da Ato3 Produções. Nesta edição, o Fórum tem como anfitrião o Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI 2025).

Reportagem: Afonso Ribas

Fotografias: Ana Júlia Ribas