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09/11/2025

Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia se consolida como espaço de debate e formulação de políticas públicas

Evento chegou ao fim neste sábado (8), em Iraquara. Programação de encerramento contou com dois grupos de trabalho e um painel com apresentação de longas-metragens em desenvolvimento no interior do estado.

Com a participação de fazedores de cultura de 21 dos 27 Territórios de Identidade da Bahia, oriundos de mais de 50 municípios, chegou ao fim neste sábado (8), o 3º Fórum Audiovisual dos Interiores. Depois de passar por Vitória da Conquista, em 2023, e por Ipiaú, em abril deste ano, o evento chegou a Iraquara, na Chapada Diamantina, consolidando-se como o principal espaço estadual de discussão e formulação de políticas públicas para o cinema produzido fora dos grandes centros. Se nas edições anteriores foi estabelecido um amplo diagnóstico das necessidades do setor, aprofundando e detalhando as questões pertinentes a cada uma delas, desta vez, as pautas levantadas pelo Fórum foram transformadas em eixos de atuação, discutidos a partir de grupos de trabalho (GTs) e atividades formativas em formato híbrido.

O quarto dia de programação teve início no período da manhã com o GT Circulação, Distribuição e Exibição de Produções Socioambientais, mediado por Esmon Primo e Wilmar Ferraz, realizadores da Mostra Cinema Conquista e do Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI), respectivamente. Com vasta experiência no campo da difusão, eles deram início às discussões com a apresentação de questões norteadoras para guiar a elaboração de metas para compor esse eixo na Carta de Iraquara, documento que sintetiza as demandas levantadas pelos participantes do Fórum ao final do evento.

Como utilizar as novas tecnologias para democratizar o acesso ao audiovisual do interior? De que forma podemos pressionar ou colaborar com o Poder Público para a criação ou reforma de espaços de exibição independentes e cineclubes em cidades sem cinema comercial? Quais estratégias de formação de público e curadoria são mais eficazes para valorizar e criar demanda pelos filmes que representam as identidades e realidades dos interiores? Como as políticas estaduais e municipais podem ser mais direcionadas para apoiar financeiramente as etapas de distribuição e exibição, e não apenas a produção? Essas foram algumas das perguntas levantadas pelos mediadores no texto motivador do GT.

Abertura do GT Circulação, Distribuição e Exibição de Produções Socioambientais.

Os desafios da difusão

“Hoje a gente vê que a grande maioria dos fomentos através de editais, leis de incentivo e programas são voltados muito mais para o fazer da produção do que da exibição”, questionou Esmon. Idealizador do programa de extensão Janela Indiscreta e do projeto Cine Movimenta Centro, ele destacou as diferentes janelas de exibição de filmes nacionais que garantem a circulação de produtos audiovisuais, incluindo salas de cinema públicas e privadas, mostras e festivais, cineclubes, espaços alternativos, pontos de cultura, televisão e streaming. “É o setor que faz a ligação da indústria [cinematográfica], gerando o encontro entre a produção e o público”, daí sua importância, pontuou.

Para Wilmar Ferraz, que trabalha com mostras e festivais desde 1998, o principal desafio para o eixo é a construção de políticas permanentes que garantam continuidade para projetos ou ações de difusão. “O fato é: a gente luta muito por políticas públicas para o audiovisual, mas vivemos presos nas políticas de governo. A gente não tem política de Estado para aquilo que a gente quer fazer. Depois de quatro anos de uma gestão catastrófica, quando a gente finalmente retoma uma normalidade democrática, a gente é obrigado a reconstruir tudo, criando alternativas imediatas e temporárias, que não necessariamente refletem a necessidade de quem está aqui. A inconstância é o nosso maior entrave, é essa falta de política pública perene, que permita que cineclubes ou salas públicas de cinema consigam se manter em atividade por anos a fio”, afirmou.

Diante dessa realidade, uma das propostas defendidas no GT pelo professor e cineasta Filipe Gama foi a criação de uma política calendarizada para mostras e festivais na Bahia, garantindo a presença estável de eventos de difusão nos interiores. “Isso é central. Não há como a Mostra de Cinema Conquista ou qualquer outro festival existir eventualmente e acabar desarticulando a cada ano um conjunto de atividades que poderiam ser regulares. Quem está tentando distribuir filmes neste momento sofre porque são poucos os festivais de cinema existentes na Bahia, ainda mais em um ano de escoamento de produções por conta da Lei Paulo Gustavo”, ressaltou.

Mediadores do GT, Esmon Primo e Wilmar Ferraz.

Entre as metas apresentadas, destacou-se também a criação de um mapeamento contínuo, em articulação com os órgãos estaduais, que registre, atualize e acompanhe o funcionamento de cineclubes, mostras e festivais. Além disso, os participantes defenderam a formação de uma rede estadual de organizadores de eventos de difusão e a implantação de uma rede articulada de espaços de exibição, reunindo salas públicas, cineclubes, pontos culturais e ambientes vocacionados dos territórios, de modo a garantir programação contínua, descentralizada e conectada às políticas já existentes, como os CEUs da Cultura.

Outro ponto foi a definição de mecanismos de circulação que contemplem políticas de licenciamento não exclusivo de produções do interior na TVE e demais emissoras públicas, além da defesa do fortalecimento de streamings independentes e da criação de plataformas públicas para exibição gratuita ou a baixo custo. Também foi apresentada a ideia de desenvolver circuitos socioambientais de exibição e estabelecer uma política pública que garanta às redes exibidoras o acesso gratuito às obras financiadas com recursos públicos.

Territórios e Identidades

O último GT da programação do 3º Fórum, Territórios e Identidades, aconteceu no turno da tarde. Os trabalhos do grupo foram iniciados ao som do maracá e das vozes potentes das produtoras culturais Sarah Payayá e Kuaray Payayá, que mediaram o debate. “E assim é o meu caminho, ilumina esse lugar. Se o caminho tem espinhos, tenha a si pra iluminar”, cantaram, guiando-se a partir das tradições e da ancestralidade de seu povo para entender como o espaço geográfico e cultural (território), na dimensão do audiovisual, molda e é moldado pela forma como as pessoas se identificam (identidade), objetivo estabelecido para o GT.

Sarah e Kuaray pertencem ao povo Payayá.

Instrumentista autodidata, atriz, cantora, compositora, arte-educadora e produtora audiovisual, Sarah apresentou o tema entrelaçando as discussões propostas pelo grupo com as histórias de luta e resistência de sua comunidade. “Falar do território é falar da gente. É falar do conhecimento que é passado de pai pra filho, que foi passado de avó pra mãe, e que foi trazido pelos nossos ancestrais. E aqui a gente está tentando, no nosso caso, do povo Payayá, recuperar essa memória”, contou.

De acordo com Sarah, por volta de 1700, o povo Payayá foi considerado extinto, e demorou muito tempo para que a etnia voltasse a aparecer nos livros de história, algo que só aconteceu graças à ciência e à pesquisa acadêmica. Mas foi só em 2019 que o grupo teve sua existência oficialmente reconhecida pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), após séculos de apagamento e de dispersão motivada pela violência imposta pelos colonizadores em busca de metais preciosos, especialmente o diamante.

“O audiovisual é importante pra gente poder mostrar para o mundo essa história e também provar que nós estamos vivos e atentos”, destacou a artista, que se capacitou na área por meio da Escola Livre Audiovisual da Chapada Diamantina (ELA). “Aí fui me apaixonando, fui gostando cada vez mais e continuo aprendendo muito. Foi uma transformação muito grande na minha vida, porque eu nunca imaginava que, a partir disso, hoje eu estaria aqui, tendo esse lugar de fala junto com meus parentes e sendo reconhecida”, relatou, emocionada. 

Sarah Payayá: “Falar do território é falar da gente”.

Há mais de 20 anos, ela faz parte do movimento cultural da cidade de Morro do Chapéu, onde mora. “A luta é grande e o audiovisual é um grande parceiro, porque enquanto a gente tiver vontade de reivindicar nossos direitos, o audiovisual vai continuar sendo essa grande ferramenta de transformação”, reforçou. 

É nisso que Kuary também acredita. Foi a necessidade de lutar por seu território e defendê-lo da invasão sistemática das grandes mineradoras que a fez voltar para a Chapada Diamantina após alguns anos morando em Belo Horizonte. Em Iraquara, onde nasceu e cresceu, criou a Casa de Tupã, que ela define como uma associação de arte, cultura e meio ambiente. 

“A gente acredita que, através do audiovisual, da música, do teatro, da capoeira e de todas as manifestações culturais, temos que ter um foco único que é proteger a nossa natureza. Nós indígenas viemos com essa missão, por isso que a gente não consegue se desvincular [do território]. Temáticas pra gente fazer filmes nós temos um bocado porque problemáticas é o que mais a gente está tendo”, disse.

Não à toa, o primeiro objetivo proposto por Kuary e Sarah para o eixo Territórios e Identidades foi fortalecer o audiovisual enquanto ferramenta de luta e de conscientização socioambiental e incentivar as produções dos territórios, buscando potencializar, defender e divulgar ações que promovam o registro dos seus povos e suas histórias. Além disso, elas sugeriram a criação de novos códigos que respeitem a linguagem e identidade de cada lugar.

Outras proposições para o GT incluíram a implementação de residências criativas itinerantes em comunidades tradicionais; o incentivo à produção de documentários e curtas de memória oral; e a criação de uma cartilha de ética e de normas financeiras para a produção audiovisual de empresas que não sejam pertencentes a comunidades e povos originários, buscando mitigar a lógica colonizadora de exploração em seus territórios.

Encerramento

Terminado o último grupo de trabalho do Fórum, a programação teve sequência com o Painel de Encerramento “Filmes de Longa-metragem em Produção no Interior”. A atividade contou com a apresentação de cinco longas desenvolvidos por realizadores de diferentes regiões da Bahia com o apoio da Lei Paulo Gustavo, sendo eles “Alice Lembra”, de Daniel Leite Almeida; “Ama mba’é Taba Ama”, de Nádia Akawã Tupinambá e Gal Solaris; “Viagem ao Sertão”, de Rayssa Coelho, Filipe Gama e Rogério Luiz Oliveira “Não Deixe o Samba Morrer”, de Luanda Lemnos e Raquel Valadares; e “Ambrosia: o Manjar dos Deuses”, de Vinícius Pessoa.

A atividade foi mediada pelo jornalista especializado em cinema, Rafael Carvalho, e contou ainda com a participação on-line de dois comentaristas externos: Camila Vieira, crítica, pesquisadora e curadora de cinema, e Gabriel Borges, curador, montador e diretor. Cada realizador ou realizadora presente para representar as obras escolhidas teve a oportunidade de falar sobre o processo de desenvolvimento dos seus projetos e os desafios da pós-produção, recebendo comentários e contribuições dos críticos convidados. Com exibições de trechos exclusivos de cada filme, o painel demonstrou a força e a potência do cinema feito no interior e de seus realizadores.

O encerramento do Fórum foi marcado ainda pela apresentação dos pontos centrais levantados e defendidos pelos participantes do evento ao longo dos seus quatro dias de programação. A leitura da versão inicial da Carta de Iraquara foi feita por Rayssa Coelho, coordenadora de formação, e Aléxis Góis, coordenador de comunicação do evento. “Foram dias intensos de debate. Durante esses últimos dias, a gente ouviu muitas sugestões. Tem um material muito rico pra ser consolidado. A carta não é o final do trabalho, é a continuação para que a gente construa as três próximas edições do Fórum. Todas elas já estão garantidas pelo edital de eventos calendarizados da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA). Então, a gente tem que aproveitar essa oportunidade para estruturar as nossas políticas públicas e ter o audiovisual dos interiores fortalecido, a partir de uma construção de dentro, que tenha a nossa cara, o nosso jeito de fazer e fruir cinema”, finalizou Aléxis.

Participantes no encerramento do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia.

O projeto tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia. Conta ainda com o apoio da Prefeitura Municipal de Iraquara, da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), e com a parceria do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste de Bahia (Uesb), por meio do programa Janela Indiscreta. A realização é da Ato3 Produções. Nesta edição, o Fórum tem como anfitrião o Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI 2025).

Reportagem: Afonso Ribas

Fotografias: Ana Júlia Ribas