Notícias

26/04/2025

Bahia Filmes: cineastas e produtores querem representações do interior na empresa estadual do audiovisual

Perspectivas da empresa para os interiores foi tema de debate no penúltimo dia do 2º Fórum AVI, em Ipiaú. Profissionais apontam que ações do órgão não podem se concentrar na capital do estado. 

Com o investimento anual de R$ 22 milhões, a Bahia Filmes, primeira empresa estadual de audiovisual do Brasil, é um mecanismo muito aguardado por realizadores do setor em todo o estado. No penúltimo dia do 2º Fórum AVI, em Ipiaú, a implementação da empresa e as oportunidades que ela pode gerar para os interiores foram o foco do debate. A mesa contou com a participação de Pola Ribeiro, diretor do Museu de Arte da Bahia (MAB); Renato Nery, da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult/BA); e Filipe Gama, professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). 

Em fase de estruturação, a Bahia Filmes foi criada com a sanção da Lei nº 14.877/2025 pelo governador Jerônimo Rodrigues. Com sede em Salvador, o órgão irá atuar na captação e atração de recursos para impulsionar a produção cinematográfica no estado. Para os realizadores do interior, a preocupação é que as ações da empresa se concentrem na capital, deixando às margens das políticas o cinema feito fora dos grandes centros. 

Diversos agentes culturais propuseram que o interior do estado tenha um representante na estrutura da Bahia Filmes. “Nós exigimos uma representação no comitê gestor, se possível na diretoria. A gente quer indicações do interior, pessoas que estejam trabalhando no campo e que entendam os entraves da área”, disse Edson Bastos, produtor executivo do Fórum AVI e diretor de projetos da Voo Audiovisual.

A produtora cultural e cineasta Gláucia Solaris questionou ainda a viabilidade da implementação de uma sede da Bahia Filmes no interior. “Estamos falando de territórios que estão longe da capital. Como a Bahia Filmes vai chegar nesses lugares? Precisamos saber como de fato vai ser essa articulação”, ressaltou. 

O cineasta Pola Ribeiro, que participa do grupo de trabalho para a implementação da empresa estadual, explicou que será feita uma articulação com municípios. “Todas as atividades podem ser potencializadas. Vamos trabalhar para isso. Quando sair a Bahia Filmes, vamos procurar a UPB (União dos Municípios da Bahia) e falar com todos os prefeitos. Vamos buscar articular para ecoar onde for possível”, reforçou.

Perspectivas da Bahia Filmes para os interiores foi tema de debate no penúltimo dia do 2º Fórum AVI, em Ipiaú. Foto: Anderson Costa Santos.

Diretor de cinema e presidente da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), Daniel Leite Almeida propôs a articulação de editais específicos para os interiores e destacou a necessidade de conhecer as particularidades de cada território e suas cadeias produtivas.

Para o professor Filipe Gama, são necessárias pesquisas para entender as dinâmicas dos interiores. “Nós não temos um diagnóstico para entender as demandas, mapear as empresas produtoras nos locais. Precisamos de pesquisas aprofundadas e acho que a primeira articulação da Bahia Filmes deve ser essa. Isso vai permitir que a gente estabeleça de fato uma política efetiva para os territórios”, enfatizou. 

Caminhos para reformas e construção de salas de cinema

Nos interiores do país, outro desafio é a ausência de salas de cinema para a difusão e a distribuição das produções. O assunto foi tema da segunda mesa da sexta-feira, 25, que contou com as participações de Daiane Silva, da Diretoria Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia (DIMAS/Secult-BA); Keu Guerra, da Secretaria de Educação e Cultura de Catu; Gerardo Bressan, da Syncora Systems; Jairo Pires, do Cine Orion; e mediação de Esmon Primo, diretor executivo da Movimenta Cultura e Arte.

Com pouco mais de 50 mil habitantes, a cidade de Catu ganhou uma sala de cinema a partir da reforma de um espaço inutilizado. O local, que antes era usado pelo Corpo de Bombeiros, recebeu equipamentos de som e outras adequações necessárias. A partir disso, foram exibidos na tela filmes como Filho de Boi, de Haroldo Borges e Ernesto Molinero; e Jonas e o Circo sem Lona, de Paula Gomes.

Keu Guerra apresentou a experiência de Catu e destacou a necessidade de políticas para a criação e manutenção de salas para democratizar o acesso ao cinema nos interiores. Já Gerardo Bressan, arquiteto de Vitória da Conquista, evidenciou a relação entre cidade, urbanismo e cinema. 

Os caminhos possíveis  para reformas e construção de salas de cinema também esteve em pauta no 2º Fórum AVI. Foto: Anderson Costa Santos.

O abandono de espaços culturais pelo Poder Público, inclusive de salas de cinema, também foi destaque no debate. Em Vitória da Conquista, o Cine Madrigal, cinema de rua adquirido pelo município em 2014, está desativado há mais de dez anos. 

“Ouvindo a experiência do cinema de Catu, eu fico feliz e ao mesmo tempo me sinto constrangido de ver uma cidade como Vitória da Conquista, com quase 400 mil habitantes, devolver recurso da Lei Paulo Gustavo”, contou Daniel Leite Almeida. Em janeiro deste ano, a Prefeitura devolveu mais de R$ 333 mil da LPG. 

Sobre o Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia

O 2º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia é uma realização da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (Sasb) e conta com a produção da Voo Audiovisual. O evento tem como anfitrião nesta edição o 4º Circuito Cine Éden, mostra de cinema que também é realizada de 20 a 26 de abril, em Ipiaú.

Confira a programação completa: https://forumavi.com.br/programacao-completa/

Assista os debates do 2º Fórum AVI: https://www.youtube.com/@forum-avi/streams 

O projeto foi contemplado nos Editais da Paulo Gustavo Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal. Paulo Gustavo Bahia (PGBA) foi criada para a efetivação das ações emergenciais de apoio ao setor cultural, visando cumprir a Lei Complementar nº 195, de 8 de julho de 2022.