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08/11/2025

Participantes do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores defendem continuidade da Lei Paulo Gustavo

Proposta foi apresentada nesta sexta-feira (7), no Grupo de Trabalho (GT) Políticas Públicas, Descentralização e Desburocratização. A programação do terceiro dia de evento contou também com o GT Acessibilidade e Inovação, além de oficina e workshop.

A nuvem de palavras projetada no auditório do Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara no fim da tarde desta sexta-feira (7), no Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia, deixou evidente um sentimento compartilhado por vários participantes da 3ª edição do evento: retomar e ampliar a Lei Paulo Gustavo (LPG) – ou o seu modelo de execução – pode ser um caminho para garantir e manter o fomento ao cinema produzido nos 27 territórios de identidade do estado, em suas múltiplas expressões e formatos. 

A reativação do mecanismo de financiamento criado como apoio emergencial ao setor durante a pandemia da COVID-19 foi uma das propostas apresentadas por realizadores audiovisuais baianos no Grupo de Trabalho (GT) Políticas Públicas, Descentralização e Desburocratização. “A LPG foi a verdadeira lei do audiovisual pra gente aqui do interior. Foi uma pena que foi só uma vez, que foi uma lei emergencial”, desabafou o cineasta Rodrigo Rodowitz, sócio-fundador da Zabelê Filmes, produtora audiovisual de Lençóis.

Para Gal Solaris, cineasta do município de Rio de Contas, a Paulo Gustavo foi importante não só para o fomento ao audiovisual no Brasil e nos interiores, mas também para dar visibilidade a pessoas que já atuavam no setor e não eram vistas ou reconhecidas. “A minha sugestão é que a gente encaminhe para a Ancine (Agência Nacional do Cinema) uma proposta de continuar a LPG. Por que não? Tem tantos recursos ali dentro, são milhões concentrados nas mãos de poucas produtoras do eixo Rio / São Paulo. Por que uma parte desse recurso não pode continuar sendo fomentado e descentralizado através da LPG?”, questionou Gal, que cobrou ainda a retomada dos editais setoriais da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA), e cota de 70% dos recursos de editais estaduais e federais para projetos de realizadores do interior.

Atividades do Fórum acontecem no Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara.

Mediado por Karoline Rodrigues, integrante do Fórum de Cinema do Interior Paulista (ICine), e Daniel Leite Almeida, representando a Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (Sasb), o GT Políticas Públicas, Descentralização e Desburocratização integrou o terceiro dia de programação do Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia, em Iraquara. Presidente da Sasb e diretor executivo da Ato3 Produções, Daniel reforçou a importância da LPG como símbolo de continuidade e fôlego para a cultura audiovisual  fora dos grandes centros urbanos.

“A Lei Paulo Gustavo se tornou referência quando a gente fala em descentralização. O Ministério da Cultura (Minc) precisa enxergar isso. Houve muitos atropelamentos, mas é o que mais se aproxima do que a gente necessita enquanto política de territorialização. A LPG conseguiu nos aproximar do pleito do recurso, mas também desburocratizar o processo. Afinal, a prestação de contas era mais simples. As produções que daqui a pouco vão despontar e que já estão despontando são produções da Paulo Gustavo”, afirmou. Segundo o cineasta, mesmo que não seja possível retomar a LPG enquanto política pública permanente, a distribuição de recursos do Fundo Setorial de Audiovisual (FSA) poderia ser feita nos moldes da lei emergencial.

Presente no Fórum, a diretora da DIMAS (Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia – FUNCEB), Daiane Silva, ressaltou que, caso a LPG fosse retomada, seria necessário rever e melhorar sua operacionalização. “Mas, de fato, tem muitos aspectos positivos e o alcance nas cidades do interior foi muito amplo”, reconheceu. Alguns participantes também apontaram a necessidade de maior fiscalização no cumprimento e execução da legislação em uma eventual retomada.

Diretora da Dimas, Daiane Silva esteve presente no 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia.

Mais descentralização, menos burocracia

As discussões do grupo também resultaram em diversas outras proposições voltadas à descentralização efetiva dos recursos e à simplificação dos mecanismos de fomento. Entre elas, está a criação de um sistema de compensação que beneficie regiões com baixo acesso histórico a editais, inspirando-se em modelos já aplicados em estados como Ceará e Pernambuco. A ideia é que cada território de identidade concorra apenas com seus pares e que quanto menor o número de projetos contemplados nos últimos anos, maior seja o peso do recurso redistribuído. 

Os participantes apontaram ainda para a necessidade de desburocratizar o acesso aos editais e fortalecer a participação de agentes culturais interioranos em todas as etapas de formulação das políticas públicas, inclusive com uma representação do interior no Conselho Superior de Cinema. Foram defendidas também ações como a criação de plataformas de orientação sobre editais e o desenvolvimento de um gabinete itinerante da Secult-BA para escutar as demandas dos territórios.

Por fim, o GT destacou a importância de políticas de incentivo à inclusão e à equidade regional, com mapeamento de coletivos, grupos e iniciativas culturais situados em zonas rurais, quilombolas, indígenas e periféricas. A proposta é conectar esses agentes a redes colaborativas e projetos de formação, valorizando as experiências locais e promovendo a autonomia criativa e produtiva. 

Acessibilidade como eixo estruturante

Encerradas as atividades do grupo, o Fórum seguiu com o GT Acessibilidade e Inovação, que reuniu participantes para discutir e mapear estratégias e soluções inovadoras para a garantia plena da acessibilidade na produção, circulação e exibição audiovisual. O encontro promoveu debates sobre a inclusão de pessoas com deficiência nessas diferentes etapas da cadeia produtiva, bem como a utilização de tecnologias e metodologias disruptivas que ampliem o acesso, a participação e a recepção das obras por todos os públicos, em diferentes contextos e plataformas.

“A acessibilidade não é um favor. É lei, e não é recente. A Paulo Gustavo veio para provar que é possível [garanti-la em produções audiovisuais]. Ela tem que ser compreendida dentro do processo de produção como um eixo estruturante, estando inserida desde quando um projeto é concebido até a sua distribuição. Isso é um ato político, principalmente pra nós do interior, que estamos à margem das políticas públicas. Então, é fundamental discutir esse tema e assumir esse compromisso de curto, médio e longo prazo para que tudo que tem se falado sobre acessibilidade e que já está na lei se torne uma realidade no dia a dia dos produtores e das pessoas com ou sem deficiência”, destacou Iara Oly, que abriu as discussões do GT.

Cineasta, artista visual, professora e pesquisadora na área de acessibilidade cultural, Iara é natural de Presidente Prudente (SP). Além de ser uma das vozes atuantes no fortalecimento do cinema independente no interior paulista, tem se dedicado à ampliação da visibilidade e acessibilidade do cinema regional, integrando a diretoria do Fórum de Cinema do Interior e Litoral Paulista.

Também é uma das fundadoras do coletivo QG Filmes, voltado à produção de obras independentes. “O nosso coletivo tem pessoas com deficiência, então a gente aprendeu na prática a ser acessível. Quando a LPG veio nós não fomos pegos desprevenidos, pois já tínhamos essa prática instituída”, contou.

Iara mediou o GT Acessibilidade e Inovação ao lado do professor Aisamaque Sousa, especialista em Libras e mestre em Educação. O grupo também teve como mediador o jornalista Dêivide Monteiro, técnico em rádio e TV, fotógrafo com deficiência visual e vasta experiência como audiodescritor e consultor de acessibilidade. Ambos compartilharam suas trajetórias e contribuíram para fomentar o debate e a elaboração de propostas para o eixo. 

Iara Oly, Aisamaque Sousa e Dêivide Monteiro mediaram o GT Acessibilidade e Inovação.

Sócio-fundador da Mãos Tagarelas e criador da HandsPlay, uma plataforma de streaming para pessoas surdas, Aisamaque revelou que sempre se relacionou com pessoas surdas. Apesar de não ter surdos em sua família, descobriu recentemente que é uma pessoa ensurdecida. “Eu fiz da HandsPlay uma causa de vida. A gente entende que nós somos o primeiro ecossistema do Brasil de tecnologia e de inovação voltada à promoção do protagonismo surdo no contexto social e educacional dentro do audiovisual”, disse.

De acordo com ele, seu objetivo com a mediação do GT foi construir um diálogo que inquietasse e incentivasse ainda mais os participantes do Fórum a promover um audiovisual mais acessível nos interiores da Bahia. “Acho que a gente pode construir ainda mais ações voltadas à acessibilidade no setor em nosso estado”, reforçou.

Já Dêivide, que participou do evento de forma on-line, apresentou dicas e estratégias práticas para garantir produções realmente acessíveis. “Nós pessoas com deficiência, principalmente aqui da Bahia, somos bastante rigorosos com essa questão. Estamos acostumados com qualidade. E se vocês colocarem a acessibilidade desde o início [numa produção], a qualidade dela melhora 100%”, enfatizou o jornalista, que também atua com mobilização de público para eventos culturais através do projeto “Saídas Culturais Acessíveis”.

As experiências e discussões apresentadas por ele, Aisamaque e Iara nortearam a elaboração de propostas para o GT Acessibilidade e Inovação. Entre os encaminhamentos, o grupo propôs a inclusão da Libras no currículo escolar desde a primeira infância e a ampliação da oferta de filmes acessíveis em escolas e espaços culturais. Também destacou a necessidade de festivais e mostras que incentivem obras com recursos de acessibilidade, além da formação de profissionais que incorporem essas práticas desde a concepção dos projetos. 

Os participantes propuseram ainda a criação de editais específicos para tornar acessíveis filmes produzidos antes do Decreto nº 9.646/2018, que regulamenta o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) e determina, desde 2019, a presença de audiodescrição, legendas e Libras em obras financiadas com recursos públicos. Outra proposta foi a realização, na próxima edição do Fórum, de um Seminário de Cinema e Acessibilidade, fortalecendo o compromisso com a inovação e a inclusão como eixos estruturantes do setor nos interiores.

Registro dos participantes ao final do GT Acessibilidade e Inovação.

Atividades formativas 

A programação da sexta-feira (8) do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia contou ainda com duas atividades formativas. Pela manhã, o professor, pesquisador e documentarista Filipe Gama ministrou a oficina “Documentário Socioambiental”, propondo um olhar sobre esse gênero como ferramenta de escuta, denúncia e preservação. Segundo ele, “o documentário surge, em sua gênese, se conectando com o meio em que ele se insere”, o que torna ainda mais fundamental a necessidade de refletir sobre as relações que o audiovisual estabelece com os territórios, já que isso interfere no modo como a gente enxerga os espaços e lugares que ocupamos.

“Quem constrói as narrativas? Quem está fazendo os filmes? Quem está apresentando esses universos? O Fórum nasce a partir desse dilema. Quem representa os territórios dos interiores da Bahia? Quem constrói os imaginários associados a esses territórios? Quem apresenta esses ambientes e os dilemas desses ambientes?”, provocou. “Por estabelecermos essa relação quase inevitável, a gente também vai estabelecer o contato com as questões e as mobilizações associadas aos territórios”, acrescentou. Ao final da oficina, a realizadora e coordenadora de formação do Fórum, Rayssa Coelho, propôs a realização de um encontro de documentaristas para aprofundar o debate sobre o tema na próxima edição do evento.

Filipe Gama: “O documentário surge, em sua gênese, se conectando com o meio em que ele se insere”.

No turno da tarde, foi a vez do cineasta Michel Santos ministrar o workshop “Internacionalização das Produções dos Interiores da Bahia”, última atividade formativa prevista na programação. “A gente sabe que produzir audiovisual no Brasil já é complexo. Mas produzir audiovisual no interior é um desafio ainda maior. Então, pensar na internacionalização dos produtos que temos desenvolvido, especialmente no interior da Bahia, exige preparo”, destacou ele, logo início da sua apresentação.

Michel é produtor executivo, diretor, e sócio-fundador da 242 Filmes, produtora de cinema e audiovisual sediada em Luís Eduardo Magalhães (BA). Seu workshop propôs discussões e estratégias para expandir as fronteiras do audiovisual feito nos territórios, fortalecendo sua presença em circuitos e festivais fora do país, sem perder o vínculo com suas origens. Para ele, isso requer tempo, planejamento, recursos financeiros e até mesmo o aprendizado de outros idiomas como inglês e espanhol, uma vez que a internacionalização envolve participação em eventos, negociações, networking e parcerias.

Workshop ministrado por Michel teve transmissão online.

O cineasta indicou algumas plataformas para facilitar a inscrição de filmes em festivais internacionais, entre elas a FilmFreeway, a Festhome, Shortfilmdepot e Reelport. Além disso, apresentou uma função importante nessa área: o agente de vendas, um profissional especializado em vender produtos audiovisuais para distribuidoras, TVs, plataformas de streaming e mercados internacionais. “Agora a gente começa a entender que existe onde a gente pesquisar, e é um trabalho que pode levar algum tempo. É preciso entender que filme você tem ou que projeto você tem e o que você quer fazer com esse projeto para entender estrategicamente onde ele é mais receptivo”, pontuou.

O encerramento do Fórum acontece neste sábado (8). O projeto tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia. Conta ainda com o apoio da Prefeitura Municipal de Iraquara, da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), e com a parceria do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste de Bahia (Uesb), por meio do programa Janela Indiscreta. A realização é da Ato3 Produções. Nesta edição, o Fórum tem como anfitrião o Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI 2025).

Reportagem: Afonso Ribas

Fotografias: Ana Júlia Ribas