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07/11/2025

Realizadores do interior baiano propõem a criação de selo para produções audiovisuais sustentáveis

Medida foi um dos encaminhamentos propostos por participantes do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia nesta quinta-feira (6), durante o segundo dia de programação do evento, que contou também com workshops sobre captação de recursos e produção em territórios indígenas.

E se existisse um selo para identificar e certificar empresas ou produções audiovisuais baianas que adotam práticas sustentáveis em suas rotinas de trabalho? Essa foi uma das propostas apresentadas por realizadores audiovisuais do interior do estado na tarde desta quinta-feira (6), durante a programação do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia, em Iraquara. O segundo dia do evento marcou o início dos chamados Grupos de Trabalho (GTs), novo formato de discussão  adotado pela organização para conduzir os debates e a elaboração de proposições para fortalecer as redes de produção, exibição e formação no setor para além dos grandes centros.

O objetivo dos GTs é planejar coletivamente ações e estratégias para compor a Carta de Iraquara, documento central construído ao longo do Fórum a fim de subsidiar o desenvolvimento e a melhoria de políticas públicas para o audiovisual do interior. Em sintonia com o tema “Território Vivo, Cinema Sustentável”, o primeiro grupo de trabalho, intitulado “Práticas Sustentáveis”, discutiu justamente a adoção de ações de sustentabilidade ambiental e social nas diferentes etapas da produção audiovisual, desde o planejamento até a pós-produção, visando a mitigação de impactos negativos da indústria cinematográfica na sociedade e no meio ambiente.

Além da criação de um selo para produções audiovisuais sustentáveis, também se destacaram como propostas o estímulo a produções regenerativas, que gerem efeitos positivos nas comunidades e territórios em que são desenvolvidas; o fomento à formação e sensibilização das equipes sobre práticas sustentáveis; a capacitação de gerentes de sustentabilidade para atuação no interior; a integração entre políticas de cultura e meio ambiente, envolvendo órgãos como a Bahia Filmes, secretarias estaduais, federais e municipais; e a inclusão de cláusulas antirracistas, antimachistas e antihomofóbicas em contratos de produção.

“A gente tem que começar a pensar, para além do que é sustentável, no que é regenerativo. Está na hora de começarmos a gerar impactos positivos [com o cinema]”, ressaltou a cineasta Gal Solaris, de Rio de Contas, ao trazer sua contribuição para o debate. O GT foi mediado por Elson Rosário, gestor e produtor cultural há 46 anos, e Liziane Silva, que atua não só como realizadora audiovisual, mas como engenheira ambiental. No período da manhã, eles também ministraram a oficina “Como produzir filmes sustentáveis nos interiores”, mostrando aos participantes que a implementação de práticas sustentáveis em produções audiovisuais não é algo distante da realidade de quem faz cinema no interior.

“Tem muita coisa na internet que fala de sustentabilidade. Mas se a gente traz a experiência de quem faz filmes no interior e alia isso às informações técnicas e à literatura disponível sobre o assunto, você consegue criar um caldo de experiências e conhecimentos pra gente atingir o propósito do Fórum de propor ações concretas para melhorar a sustentabilidade dos filmes feitos nos interiores, algo fundamental atualmente, em tempos de COP30. E para isso, precisamos aprender a cuidar do território, cuidar das pessoas e cuidar das formas de produzir”, explicou Elson.

Durante a oficina e o GT ele e Liziane apresentaram alguns guias de sustentabilidade para o setor audiovisual como referências para os estudantes e profissionais presentes. “Esses guias são muito práticos. Tem ações das mais simples às mais complexas. Escolhe pelo menos uma ação pra cada setor. Isso já faz diferença e muda o jeito que as pessoas encaram [o tema]. Quem sabe da próxima vez, você consegue aplicar mais. Às vezes, achamos que ser sustentável é não usar copo plástico. E não é esse o ponto. A sustentabilidade se baseia num tripé, que é o social, ambiental e econômico. Então, as pessoas também são importantes, não é só o meio ambiente”, reforçou a produtora e engenheira.

Elson Rosário e Liziane Silva, mediadores do GT Práticas Sustentáveis.

Sustentabilidade financeira

A sustentabilidade financeira também foi alvo de discussões no segundo dia de programação do 3º Fórum Audiovisual dos Interiores com o workshop “Captação de Recursos”. Ministrada pelo coordenador de comunicação do evento, Aléxis Góis, a atividade apresentou estratégias para viabilizar produções audiovisuais fora das capitais, explorando formas criativas e acessíveis de financiamento. 

Em sua aula, o cineasta e consultor cultural ressaltou que, mesmos os recursos concedidos em forma de apoio ou permuta, devem ser considerados como parte do processo de captação. Além disso, detalhou as diferentes fases nas quais é possível captar financiamento para uma produção audiovisual (roteiro, produção, pós-produção, distribuição e exibição), assim como as diferentes fontes de recursos para cada uma delas, incluindo Leis de Incentivo, bolsas de pesquisa e roteiro, editais de produção e distribuição, coprodução, entre outras.

“Mas de um modo geral, a dica que eu dou pra garantir essa sustentabilidade é estar em rede, estar agregado a outros profissionais. E é por isso que nós estamos aqui no Fórum, pra que a gente consiga se apoiar, estar juntos e caminhar juntos dentro do audiovisual. A gente quer produzir cinema no interior de acordo com as nossas características. A gente está aqui querendo se expressar. Então, de que forma podemos existir e ser sustentável nesse contexto? Esse é o desafio”, afirmou Aléxis.

Aléxis Góis: “A gente está aqui querendo se expressar. Então, de que forma podemos existir e ser sustentável nesse contexto?”

Produção em territórios indígenas

A quinta-feira (6) contou ainda com mais um workshop no 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia. Com o tema “Produção Audiovisual em Territórios Indígenas: Natureza e Comunicação”, a atividade foi ministrada por Jp Îasanã, comunicador, designer gráfico, fotógrafo, apresentador e agente cultural licenciado pela Política Nacional Cultura Viva. 

Pertencente ao povo Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, JP aprofundou a discussão sobre cinema indígena introduzida no seminário que abriu a programação do Fórum, na quarta (7). Em sua exposição, ele apresentou o conceito de “quarto cinema”, uma classificação proposta pelo cineasta neozelandês Barry Barclay para abarcar produções cinematográficas desenvolvidas por e para comunidades indígenas e povos tradicionais em geral a fim de expressar suas próprias culturas, histórias e perspectivas.

“Por que é importante fazer audiovisual em terras indígenas? A gente pode pensar no audiovisual enquanto uma ferramenta de luta política e em favor do ativismo nesse contexto indigenista”, destacou. Para isso, o uso estratégico da imagem e do som, de acordo com JP, pode servir para uma série de ações que vão desde o registro de rituais, documentação de ameaças e da luta pelo direito à terra, ao fortalecimento de reivindicações e à desconstrução de estereótipos historicamente associados aos povos originários.

O comunicador ressaltou ainda que isso pode ser feito não somente através do cinema documental, mas também por meio da ficção. Além disso, reforçou a importância da ética como um cuidado fundamental a ser levado em conta nesse contexto, tendo como pilares a transparência e o respeito à espiritualidade e à cultura do povo retratado em determinada obra.

Jp Îasanã: “A gente pode pensar no audiovisual enquanto uma ferramenta de luta política”.

“Aos realizadores audiovisuais, especialmente aos não indígenas, é preciso pensar: se a gente quer fazer um produto audiovisual com uma comunidade indígena, que bem a gente vai estar levando para essa comunidade? Qual a responsabilidade social enquanto comunicadores e realizadores nós temos com esses povos?”, questionou.

Para JP, é preciso demarcar a diferença entre o cinema indígena e o cinema feito em territórios indígenas, pois não são a mesma coisa. “Mas ambos precisam acontecer. Ambos precisam ser respeitados, executados e visibilizados da maneira correta”, pontuou. “Fazer cinema é mais do que fazer filme. É um ato político. Não é porque não se é indígena que não se pode falar sobre as causas. E se você tem a possibilidade de ter contato, de ter vivência em comunidades indígenas, que tenha, porque você vai ouvir as vozes não-hegemônicas que precisam ser ouvidas”, acrescentou.

Formação e educação em pauta

O segundo dia de programação foi finalizado à noite, com o grupo de trabalho “Educação e Formação”, mediado por Rayssa Coelho, produtora executiva e realizadora audiovisual de Vitória da Conquista. A abertura do encontro ficou por conta de representantes da Associação Grãos de Luz e Griô e da Escola Livre Audiovisual da Chapada Diamantina (ELA).

Diferentemente das atividades anteriores, em que público e convidados estiveram em lados opostos opostos do auditório do Colégio Estadual de Tempo Integral de Iraquara, as pessoas presentes foram convidadas ao palco para se reunir em roda, onde ficaram até o fim dos debates propostos para o GT. E foi com o samba de roda que o encontro foi iniciado, trazendo, logo em seguida, as experiências e proposições para o eixo de realizadores e realizadores de diferentes territórios de identidade do interior baiano.

Entre as propostas apresentadas no grupo de trabalho, destacaram-se a defesa da inserção do cinema brasileiro, baiano e regional na educação formal. Os participantes também sugeriram a criação de mecanismos que facilitem o acesso de fazedores de cultura sem letramento formal aos editais de fomento, bem como a descentralização das ações formativas universitárias e o mapeamento de organizações independentes já atuantes nos territórios.

Foi enfatizada ainda a importância de consolidar e expandir metodologias como as da ELA e da Grãos de Luz e Griô, tornando-as referências em educação audiovisual comunitária. As propostas convergiram para a construção de uma rede autônoma e emancipadora entre escolas, coletivos, cineclubes e espaços de exibição que atuam com formação no setor. Além disso, o grupo defendeu a ampliação da difusão e exibição cinematográfica em ambientes educativos, de modo a democratizar o acesso, estimular olhares críticos e promover a formação cidadã por meio da linguagem audiovisual.

O 3º Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia. Conta ainda com o apoio da Prefeitura Municipal de Iraquara, da Associação do Setor Audiovisual do Sudoeste Baiano (SASB), e com a parceria do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual do Sudoeste de Bahia (Uesb), por meio do programa Janela Indiscreta. A realização é da Ato3 Produções. Nesta edição, o Fórum tem como anfitrião o Festival Americano de Cinema e Vídeo Socioambiental de Iraquara (FASAI 2025).

Reportagem: Afonso Ribas

Fotografias: Ana Júlia Ribas